Reações negativas ao plano de Trump para ocupar Gaza

Têm sido muitas as reações às declarações de Donald Trump, que na terça-feira (04.02), no final de um encontro, em Washington, com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, sugeriu que os Estados Unidos poderiam assumir o controlo da Faixa de Gaza e desenvolvê-la economicamente, de forma a transformar o enclave na nova “Riviera do Médio Oriente”.
“Os Estados Unidos vão assumir o controlo da Faixa de Gaza e faremos um grande trabalho lá”, disse Trump, que também não põe de parte a possibilidade de enviar tropas norte-americanas para Gaza.
Mas antes disso, voltou a sugerir o Presidente norte-americano, os palestinianos deslocados em Gaza deveriam ser “reinstalados permanentemente” noutros locais.
Atualmente vivem cerca de 2 milhões de pessoas na Faixa de Gaza, devastada pela guerra entre Israel e o Hamas, na sequência dos ataques terroristas de 7 de outubro de 2023.
Hamas considera plano de Trump “racista”
“Ridículos e absurdos” foram os adjetivos usados em declarações à agência Reuters por Sami Abu Zuhri, um alto dirigente do Hamas, o grupo islamista palestiniano que governa a Faixa de Gaza, em reação às declarações de Donald Trump.
O Hamas, considerado um grupo terrorista pelos EUA, Alemanha e outros países, disse esta quarta-feira que não permitirá a concretização dos planos anunciados pelo Presidente dos Estados Unidos, que considera “racistas”.
“Rejeitamos as declarações de Trump, que disse que os residentes da Faixa de Gaza não têm escolha a não ser sair, e consideramo-las uma receita para criar caos e tensão na região”, informou o Hamas em comunicado.
O presidente da Autoridade Nacional Palestiniana (ANP), Mahmoud Abbas, também já rejeitou a proposta de Trump. “Não permitiremos que os direitos do nosso povo, pelos quais lutamos há décadas e pelos quais fizemos grandes sacrifícios, sejam violados”, disse numa mensagem divulgada pela agência de notícias palestiniana Wafa.
Berlim diz que Gaza “pertence aos palestinianos”
A Faixa de Gaza “pertence aos palestinianos” e deverá, “tal como a Cisjordânia e Jerusalém Oriental” fazer parte do “futuro Estado palestiniano”, defendeu a ministra alemã dos Negócios Estrangeiros.
“A população civil de Gaza não pode ser expulsa e Gaza não pode ser permanentemente ocupada ou recolonizada”, sublinhou Annalena Baerbock em comunicado, acrescentando que a Europa está pronta a desempenhar o seu papel, juntamente com os EUA e os parceiros regionais, na reconstrução de Gaza.
França e Reino Unido também rejeitaram o plano do Presidente norte-americano de expulsar os palestinianos e defenderam que a solução para a região tem de passar pela existência de dois Estados: Israel e Palestina.
“A França opõe-se totalmente à movimentação das populações”, afirmou a porta-voz do Governo francês, Sophie Primas, que classificou as declarações de Trump “perigosas para o processo de paz”.
O ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, David Lammy, afirmou que os palestinianos devem manter-se na Faixa de Gaza e na Cisjordânia e ter a possibilidade de aí “viver e prosperar”.
Também o secretário do Ambiente, Steve Reed, disse à Sky News que a posição do Reino Unido é que os palestinianos “devem poder regressar às suas casas e reconstruir as suas vidas” e que a solução de dois Estados é a única solução para a paz a longo prazo.
Arábia Saudita e China contra deslocação de palestinianos
A Arábia Saudita já fez saber que rejeita qualquer tentativa de deslocar os palestinianos das suas terras e que esta posição não é negociável.
Numa declaração emitida hoje, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Arábia Saudita disse que o seu longo apelo a um Estado palestiniano independente é uma “posição firme e inabalável”.
“O reino da Arábia Saudita sublinha igualmente a sua rejeição absoluta da violação dos direitos legítimos do povo palestiniano, quer através das políticas de colonização israelitas, da anexação de terras palestinianas ou dos esforços para deslocar o povo palestiniano das suas terras”, lê-se no comunicado.
A Arábia Saudita tem apoiado a criação de um Estado independente para os palestinianos, constituído pela Faixa de Gaza e pela Cisjordânia, com Jerusalém Oriental como capital.
Para quem vão os louros do cessar-fogo na Faixa de Gaza?
Pequim também disse esta quarta-feira que não concorda com a “deslocação forçada” de residentes palestinianos da Faixa de Gaza.
“A China espera que todas as partes aceitem o cessar-fogo e regressem a uma solução política de dois Estados”, disse o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Lin Jian, em conferência de imprensa.
Plano pode “mudar a história”
Já o primeiro-ministro israelita considerou que o plano de Trump “é algo que pode mudar a história e que “vale a pena tentar”. Na conferência de imprensa conjunta em Washington, Benjamin Netanyahu descreveu Donald Trump como o “maior amigo que Israel alguma vez teve na Casa Branca”.
Netanyahu também disse acreditar que Israel vai chegar a um acordo de paz com a Arábia Saudita. “Penso que a paz entre Israel e a Arábia Saudita não só é viável, como vai acontecer”, sublinhou.
“A vitória de Israel também será a vitória dos EUA”, enfatizou o primeiro-ministro israelita, acrescentando que são três os principais objetivos do país: “destruir as capacidades militares e de governo do Hamas, garantir a libertação de todos os reféns e garantir que Gaza nunca mais represente uma ameaça a Israel.”
Rússia cautelosa
O Kremlin absteve-se de criticar abertamente o plano do Presidente dos EUA. “Sim, ouvimos a declaração de Trump […]. E também vimos as declarações de Amã […] e do Cairo […], que falaram sobre a rejeição de tal ideia”, disse Dmitry Peskov, porta-voz presidencial.
Peskov insistiu na posição “bem conhecida” da Rússia, que apoia a fórmula dos dois Estados, “a única variante possível”, frisou.
E como reagiu a ONU ao plano de Trump? “É muito surpreendente e resta saber o que significa em termos concretos”, disse à AFP o Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados. “É muito difícil exprimirmo-nos sobre esta questão, que é muito sensível”, acrescentou Filippo Grandi.
“O direito internacional é muito claro: a autodeterminação é um princípio fundamental e deve ser protegido por todos os Estados, como o Tribunal Internacional de Justiça sublinhou recentemente”, disse à EFE Volker Türk, Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos.
“O sofrimento das pessoas no Território Palestiniano Ocupado e em Israel tem sido insuportável. É necessário entrar numa nova fase para garantir a paz e a segurança de palestinianos e israelitas com base na dignidade e na igualdade”, acrescentou Türk.
“Tornar Gaza bonita novamente”
O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, prometeu esta quarta-feira tornar a Faixa de Gaza “bonita novamente”, horas depois de Donald Trump ter proposto assumir o controlo do enclave e reconstruí-lo.
“Os Estados Unidos estão prontos para liderar e tornar Gaza bonita novamente. O que procuramos é a paz duradoura na região para todas as pessoas”, escreveu na rede social X Rubio, que está em viagem pela América Central.
O presidente da Câmara dos Representantes, o republicano Mike Johnson, elogiou os comentários de Trump. “Temos esperança de que isto traga a tão necessária estabilidade e segurança à região”, escreveu no X.
“Piada de mau gosto”
Alguns políticos democratas reagiram de forma negativa aos comentários do Presidente dos EUA.
O senador democrata Chris Murphy disse que a proposta de Trump de assumir o controlo de Gaza era uma “piada de mau gosto”, acrescentando num post no X que Trump tinha “perdido totalmente a cabeça”.
A congressista Rashida Tlaib descreveu a ideia de reassentar os habitantes de Gaza como “limpeza étnica”.
Nem todos os democratas rejeitaram a possibilidade de uma presença dos EUA em Gaza. Em declarações ao jornal Politico, o senador John Fetterman considerou os comentários de Trump “provocadores”, mas acrescentou que “faz parte de uma negociação”.